A carta sustenta uma figura de armadura, montada e imóvel, fazendo uma pausa à beira de um dia que sobe. Numa mão, o cavaleiro fecha os dedos em torno de uma coroa manchada, sem vontade de deixá-la cair na terra entre o capim pisado e as flores selvagens murchas. Um bispo se ajoelha, imóvel em prece, enquanto atrás da cena o sol paira logo abaixo do horizonte, a luz pressionando mas ainda sem romper o encanto da noite. O cortejo para; ninguém fala, e até os estandartes, outrora erguidos alto, vergam no ar estagnado. Isto não é a investida dos finais, mas o silêncio inquieto do que se recusa a ser terminado.
Através de oceanos e de séculos, houve outrora assentamentos abertos em florestas emaranhadas, formados por quem fugia de senhores antigos e construía os próprios mundos. Em clareiras espessas da mata, torravam grãos sobre fogos lentos, deixando o cheiro derivar através de casas cobertas de junco. As histórias dizem que as pessoas tingiam os tecidos com dádivas da floresta, esmagando raízes e casca, mexendo água fervente em panelas de ferro batidas. Panos e lenços de cabeça absorviam a cor, levando consigo a marca de uma história que não seria apagada nem esquecida, não importa quantas vezes o rio fosse cruzado.
Nas cozinhas quietas, uma panela pesada está sobre o fogão, cheia de feijões deixados de molho durante a noite para que as cascas amolecessem e os centros ficassem densos e cremosos. Quem cozinha mexe devagar, olhando pela janela um céu achatado por nuvens que se recusam a seguir. O ensopado engrossa, escuro e rico, uma refeição que ecoa o modo como algumas histórias são contadas outra vez e outra vez, cada narração acrescentando profundidade e peso. Sobre a mesa, uma romã se abre, os arilos espalhados num prato, manchando pontas dos dedos e guardanapos. O gosto da fruta permanece, ácido e teimoso, nunca chegando a ceder toda a doçura de uma vez.
Em sótãos e armários, um gorro de veludo repousa entre heranças, costurado por mãos que ninguém lembra, as dobras alisadas a cada ano, mas nunca usado nem descartado. Coisas assim são guardadas muito além da sua hora, lembretes de anos em que a mudança era possível, mas agora só o ritual permanece. Uma tempestade se aproxima; o ar engrossa, perfumado de terra molhada e da promessa de uma chuva que empaca na borda da cidade. As portas chocalham, mas a tempestade não rompe, e os campos lá fora não bebem nada, à espera de um alívio que não vem.
Você pode sair hoje e afundar as botas num solo que se agarra e não solta, sentindo o puxão de algo antigo sob os pés. Pegue a romã do balcão, prove cada semente com intenção, notando o que fica para trás. Envolva-se num pano passado através da sua família, seguindo o bordado com o polegar, e escute enquanto o trovão se junta sem liberação. Acenda uma vela num copo espesso e arredondado, e veja a chama flutuar acima de uma poça que nunca chega a transbordar.
Este é um dia para segurar, para carregar a coroa de cômodo em cômodo, para ficar à janela enquanto o amanhecer espera, sem ser reclamado e sem ser terminado, além do vidro.
A cor da sorte de hoje é Bordô.
Lucky Color: Maroon — #800000Um momento guardado é um momento pesado.
Ao recusar terminar, algo é sempre retido.