Colors for the Fool

A cor da sorte de hoje, tirada do tarô

Tirar uma carta / A Lua

A Lua, Índigo. A cor aparece no espelho do centro.

Índigo

Invertida · #4B0082

Nas horas espessas pouco antes do amanhecer, o mundo é um emaranhado de raízes e água quieta. A Lua, invertida, não envia luz calma para separar o conhecido do desconhecido. A névoa se insinua entre as pedras rachadas, e o velho caminho, ladeado de funcho selvagem e grilos, perde a borda. O cão e o lobo, antes marcados pelas próprias sombras, desaparecem no mesmo borrão de movimento. Todas as distinções se dobram no silêncio. O ar está pesado com o cheiro de algo distante, algo que mancha a memória, mas não entrega o nome.

Numa aldeia rio abaixo, os tanques esfriaram e os montes em fermentação estão quase prontos. O ar aqui é agudo, tingido pelo cheiro de talos esmagados sob os pés. O pano, áspero do tear, é primeiro mergulhado e depois deixado de molho. Mulheres de mãos curtidas mexem o líquido fumegante, cada gesto uma invocação lenta. Aventais manchados, a pele marcada por longas horas, elas tiram o tecido do banho e o levam para secar, cuidadosas para não derramar uma só gota. O pano, pesado e escuro, é estendido sobre varas de bambu enquanto a névoa se assenta no campo. Diz-se que viajantes do leste um dia trocaram bolos desse corante por sal e peixe seco, e que a floração dessa planta marcava a borda dos jardins de onde as coisas selvagens se mantinham afastadas.

Há histórias de que o corante vinha de rios que serpenteavam por reinos antigos, de plantações onde as monções rompiam o solo e os talos se emaranhavam livremente sobre as margens. Outrora, as folhas eram esmagadas sob uma pedra, a água acrescentada pouco a pouco, a mistura deixada a fermentar sob juta. O cheiro do processo, terroso e fundo, grudava por dias nas mãos de quem trabalhava. De manhã cedo, o vapor que subia dos tanques era tão misterioso quanto a névoa que agora se enrola pelos bosques à luz incerta da lua. Em algum lugar, uma tigela entalhada em madeira de tamarindo repousa numa mesa baixa, segurando um bolo do corante, rachado nas bordas. Retalhos de tecido, usados para remendos, estão dobrados num baú com um ramo de hortelã para afastar as traças.

No norte, viajantes falam de tempestades fendidas por riscos da cor do corante: relâmpagos que abrem o céu e caem contra a face distante da montanha. Diz-se que a chuva de lá carrega o cheiro da planta, amargo e quase metálico, para os rios que correm rumo a território desconhecido. Mesmo nas horas mais suaves, a memória desse tempo permanece, presa à mente como um segredo. Quem trabalhava nos campos ou fervia o corante sempre guardava um ramo da planta sob o travesseiro, acreditando que ele apanharia os sonhos e afastaria a confusão.

Esta noite, A Lua invertida guarda suas histórias por perto. A névoa engrossa, e os nomes de cão e lobo se afastam. Na cozinha, uma xícara lascada guarda uma lasca do corante endurecido, salva do último lote. Pode-se moer um pouco para marcar uma carta que não será enviada, ou enfiar no bolso um quadrado de pano já mergulhado, para viagens que exigem cruzar pontes sem nome. Um galho da planta, seco e quebradiço, serve para queimar numa hora quieta, e lembrar você de rios e de ventos alísios. Quando o amanhecer chegar, você pode deixar uma pitada em infusão na água e lavar as mãos, deixando o aroma permanecer até que os nomes voltem.

A cor da sorte de hoje é Índigo.
Lucky Color: Indigo — #4B0082Deixe o caminho desaparecer por um tempo.
O rio lembra para onde ir.

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