Em A Temperança invertida, as mãos cuidadosas do anjo tremem, e a água, feita para fluir num arco perfeito de um vaso a outro, se derrama sobre a mesa. O ritual delicado da mistura vacila. De um lado, o líquido se acumula, encharcando o pano de baixo, sinal de que nem tudo encontra seu lugar a tempo. A harmonia que outrora mantinha dois elementos juntos agora tomba, e as ferramentas comuns do equilíbrio — jarra medidora, tigela com alça e taça firme — ficam espalhadas, o propósito interrompido. O momento está maduro demais, como fruta deixada tempo demais na videira, a doçura ameaçando escorregar para um excesso enjoativo. Um lado pesa, o outro é leve, e o fulcro se perdeu.
Na história dos mercados, os comerciantes pesavam as mercadorias em balanças de madeira entalhada, sempre atentos à igualdade, mas às vezes um polegar descuidado inclinava a medida, e o monte de peônias — cortadas com o orvalho da manhã ainda preso às cabeças franzidas — tombava no chão, machucado e brilhante. Pétalas se espalhavam pelas pedras do calçamento, esmagadas sob pés apressados, o perfume subindo agudo e súbito. Os montes de flores de camélia, colhidas em jardins sombreados, nunca chegavam de todo à cesta seguinte, e o chá feito de tais flores saía levemente torto, como se o próprio tempo tivesse pressionado seu desejo em cada xícara.
Há lugares em que a paisagem lembra o desequilíbrio. Nos trechos ao sul dos Andes, as encostas estão salpicadas de cactos selvagens e das flores que aparecem depois de uma chuva súbita. Essas flores se abrem de rompante após meses de seca, a presença mais um ímpeto do que um desabrochar suave. O ar, pesado de umidade, pinga de paredes lavadas e se infiltra nas redes tecidas penduradas sob os telhados das varandas. Aqui, a chegada de uma monção pode inclinar a estação para o caos — os rios transbordam, e cobertores bordados com fios de cravo são puxados bem juntos aos ombros quando a noite esfria depressa demais para o conforto.
Histórias do mito antigo falam da deusa cujas vestes se arrastavam atrás dela quando cruzava o limiar da aurora, roçando as pétalas de rosas cultivadas à sombra de colunas de mármore. A seda do vestido — tingida à maneira antiga, com cochonilha moída na pedra — era um prêmio raro, feito só por mãos pacientes e só para a celebração mais alta. As acompanhantes, carregando ânforas, eram advertidas a pisar com cuidado ou arriscar respingar o vinho precioso. Em cada festa, alguém ria alto demais, esbarrava numa jarra, e a bebida se derramava, manchando o chão de mosaico, deixando uma marca que durava muito mais que o riso.
Numa cozinha quieta nesta manhã, uma criança pode pôr um único cravo num pote de vidro, o caule aparado de modo desigual, a flor pendendo sob a própria plenitude. Alguém, buscando equilíbrio, mexe geleia de framboesa no iogurte, vendo os redemoinhos se recusarem a se misturar, cada risco um testemunho do instante anterior a a mistura se completar. Um viajante, fazendo uma pausa num mercado, escolhe um lokum da bandeja, polvilhado de açúcar, saboreando a pegajosidade que gruda nos dedos. Uma costureira, remendando um lenço de seda, enfia a agulha e a passa pela borda bordada de pétalas, lembrando as vezes em que o tecido tremulava no ar da festa. Cada um desses gestos oferece um modo de honrar a beleza do que transborda, de acolher o que se recusa a assentar em silêncio na taça.
A cor da sorte de hoje é Rosa intenso.
Lucky Color: DeepPink — #FF1493Deixe que o desequilíbrio se torne um começo, não uma ferida.
Cada derrame marca uma virada.