A carta mostra o lago com a borda à mostra, a linha da água afundada, os jarros postos de lado enquanto a figura olha para cima e encontra o céu inalterado, distante. A esperança, por agora, é uma memória deixada para trás com pegadas no pó. Sob esses pés, a terra está seca como o interior de um couro antigo. Este é o momento em que a promessa brilhante da noite não basta para encher os recipientes, e as mãos ficam vazias. A paisagem não é estéril, apenas à espera de renovação, como um campo depois da colheita, quando os talos são cortados rente e o restolho apanha o último calor do anoitecer.
O mundo é feito de tecido, áspero mas familiar, como o material usado em tendas esticadas sob as estrelas do deserto, ou sacos amolecidos pela idade, guardando o grão da estação. A história aqui está marcada em dias de trabalho, em que os couros são curtidos pelo sol e pela fumaça, pendurados em armações de madeira para secar, o cheiro levado pelo vento. A banca do mercador na borda de uma cidade ribeirinha oferece tiras de couro curado, flexível e duro, pronto para solas ou para alforjes. Cada peça é prova de algo suportado, um processo de molho, raspagem e secagem, até a pele se transformar e o tempo poder ser enfrentado de novo.
Há muito, caravanas atravessavam as estepes e as passagens de montanha, carregando fardos de bens curados. As mãos dos mercadores estavam manchadas e calejadas, as unhas orladas de terra e de partículas de casca do sumagre e do carvalho usados no ofício. Os mercados se enchiam do cheiro de nozes assadas, de pão doce polvilhado com cascas de noz moídas, e de esteiras tecidas de juncos colhidos em rios lentos. Em casas de fazenda longe do mercado, a mesa da cozinha é uma tábua sólida de madeira, a superfície gasta até ficar lisa por gerações de cotovelos e de tigelas. Há um cesto de milho tostado na prateleira, ao lado da caixa de pão feita de bétula e forrada com costura caprichada.
O tempo, também, tem o seu humor. Na hora depois de uma tempestade, o chão está vivo com cheiros de mato rasteiro e de pó, as nuvens se abrindo, o ar deixado seco e fresco. As pessoas saem, calçando botas que caminharam pela lama e pelo pó por igual, e examinam o campo, agora marcado por fendas finas. A cerca do jardim está remendada com tiras de couro antigo, pregadas no lugar anos atrás, quando uma ferramenta quebrou e não havia mais nada à mão. O mundo é feito do que perdura, do que é remendado e consertado, reaproveitado e levado adiante: couros virados cintos, sacos remendados para o grão, pão feito do que a última colheita deixou no seu rastro.
Nesse estado de ânimo, você pode untar um par antigo de botas para manter as costuras firmes. Pode varrer o chão e escovar a areia que se juntou no limiar, deixando a mente assentar no que permanece, e não no que se foi. Considere assar pão achatado numa frigideira seca, vendo-o borbulhar e ficar crocante, a tarefa ao mesmo tempo antiga e presente. Ou pode pegar uma tira de couro e fazer um marcador simples, passando-o por um livro que você ama, marcando a página para quando as estrelas voltarem.
A cor da sorte de hoje é Canela.
Lucky Color: Tan — #D2B48CQue a paciência seja a sua companheira.
O céu se abrirá no tempo dele.