O Sol ― De pé
Uma criança senta montada num cavalo entalhado, o cabelo despenteado por uma brisa, o rosto voltado para a manhã. Atrás, um muro baixo de pedra marca o limite de um jardim antigo, um em que a luz do sol aguça a borda de cada folha, e as pétalas se abrem em certeza quieta. O muro não é apenas uma linha na terra, mas uma memória de mãos moldando-o: pedras recolhidas dos campos, cada uma erguida e assentada com intenção, quente sob a palma quando o dia está claro. A luz toca o muro e o cavalo; corre ao longo dos braços da criança, torna o mundo vívido o bastante para ser traçado.
Nas colinas da Toscana, lavradores erguem pás da terra, as palmas manchadas pela memória do solo. Aqui, o chão é uma coisa viva, rica do trabalho de séculos. Os campos, um dia selvagens de alecrim e de aveia brava, estão agora pressionados de oliveira e de videira. Oleiros recolhem terra da margem do rio, sovando-a em tigelas que levarão sopa ou água, ou guardarão um punhado de ovos numa janela de cozinha. O vale ao amanhecer está quieto, mas não vazio: o cheiro de fumaça de lenha sobe onde padeiros cuidam dos fogos da manhã, e o céu está claro o bastante para distinguir o contorno de mosteiros distantes, construídos há muito da mesma terra e da mesma pedra.
Viajantes um dia cruzaram esses vales, trocando pigmento e prece nos portões da cidade. Os muros do convento, pintados com histórias de santos e de festas, são forrados de afrescos que sobreviveram a séculos: cores tiradas do próprio chão, misturadas com óleo e ovo, pinceladas em linhas cuidadosas. Monges moíam a terra até pó, aprendendo a separar pedra de raiz, depois misturando-a até que se movesse como seda nas mãos. Pintavam os mantos dos santos, as auréolas e as curvas gentis do trigo dobrando-se nos campos. Cada pincelada era uma bênção, uma declaração de que o que jazia oculto na margem do rio podia encontrar vida nova na luz.
Nos dias de festa, estandartes são pendurados das janelas, pano tingido pelas mãos de mulheres que conhecem os modos de ferver plantas e terra em grandes panelas. O pão é partido ao ar livre, quente e perfumado, a crosta manchada da pedra da lareira. A chuva cai às vezes, súbita e feroz, mas é sempre o sol que volta, secando os paralelepípedos e devolvendo os contornos de cada passo, de cada caminho através do mercado, de cada soleira gasta.
Há firmeza nesses objetos: a tigela sobre a mesa, o muro que marca o jardim, o cavalo que espera na borda de um campo. Oferecem um modo de recolher o que estava invisível: as sombras recuam, e a forma das coisas volta, pronta para a mão. Hoje, reserve um momento para apoiar a palma num tijolo aquecido pelo sol ou no lado liso de uma tigela feita de terra. Escreva uma carta numa escrivaninha de madeira, deixando as linhas assentar uma a uma, como se contornassem algo há muito familiar. Se você tiver um pão, parta-o em companhia; se caminhar, faça-o onde os contornos estão claros, e o dia está aberto diante de você.
A cor da sorte de hoje é Siena.
Lucky Color: Sienna — #A0522DA terra lembra o que o sol revela.
Siga a linha onde a luz encontra o barro.