A névoa se reúne ao longo da margem do rio, envolvendo juncos e pedras num silêncio mais fundo que o sono. No caminho lamacento, as pegadas se borram, indistinguíveis agora: um animal não se distingue de outro, e os nomes se perdem na noite. O céu acima é uma cúpula sem estrelas, uma abóbada que não devolve nada, nem mesmo o lampejo mais tênue. Do outro lado da água, a velha ponte se torna uma lembrança, suas madeiras engolidas pelo ar espesso e pelo silêncio de correntes que não se veem. Nesta hora, a lanterna comum crepita e se apaga, e sua chama frágil fica oca sob o peso do que não pode ser visto.
No mundo antigo, havia histórias de sementes que dormem pelos invernos mais longos. Caroços de azeitona carbonizados, enterrados sob as cinzas da lareira, esperavam uma primavera que talvez nunca viesse. Nos lugares altos, o solo vulcânico guarda os restos de cidades que desapareceram sob nuvens de fuligem: colunas tombadas, ruas apagadas, apenas fragmentos deixados para serem descobertos por mãos pacientes. Na boca do poço, uma tampa forjada em ferro esconde as profundezas de olhos descuidados; a corda desaparece ao descer, e o balde volta frio, trazendo água com gosto de pedra.
Sob o abrigo de outra noite sem lua, pescadores lançam as redes numa água cuja superfície é uma lâmina única e indivisa, sem sinal de ondulação nem de reflexo. Ao longo das margens, biguás secam as asas, estáticos sobre píeres lustrosos de alcatrão tirado dos leitos de florestas antigas. Na casa, um pedaço de seda jaz dobrado no fundo de um baú de cedro, e a superfície toma a forma de tudo o que a pressiona. Sapateiros trabalham no banco à luz de um toco de vela, passando graxa no couro até que ele brilhe com a memória da chuva sobre a ardósia.
Nuvens se juntam sobre as terras de cultivo quando as tempestades se aproximam, fechando o horizonte. O som de sinos distantes chega abafado, atravessando um tempo tão denso que só as coisas mais próximas permanecem certas. Monges em mosteiros de montanha entintam seus versos em papel feito de casca de amoreira, e a escrita desaparece na fibra quando a lâmpada falha. Na cozinha, alguém mói grãos de pimenta num pilão de granito, e os fragmentos soltam um aroma agudo, terroso e persistente. No fogão, uma panela de feijão ferve em fogo brando, as cascas intactas, guardando dentro a promessa de alimento nos tempos magros.
Na encruzilhada em que todas as direções parecem iguais, viajantes param e traçam o contorno de uma pena de corvo caída entre os espinheiros. A pena é um sinal deixado por alguém que passou antes deles, ou talvez pelo próprio vento. No extremo norte, o solo da tundra guarda a memória de ossos de mamute e das raízes de pinheiros-anões, tudo afundado abaixo do alcance da luz do dia durante metade do ano. Na borda da aldeia, o ferreiro mergulha o ferro no óleo, e o vapor sobe em nuvens rápidas e silenciosas enquanto o metal esfria.
Esta noite, alguém pode sentar-se junto à janela e escrever um segredo num pedaço de papel, depois dobrá-lo num envelope e guardá-lo. Outra pessoa pode moer café, deixando que o aroma marque a passagem das horas antes do amanhecer. Alguém pode esfregar um sapato com um retalho de pano velho, trabalhando até que os arranhões esquecidos desapareçam. Ou simplesmente caminhar por uma estrada sem luz, deixando que os sons da noite guiem cada passo.
A cor da sorte de hoje é Preto.
Lucky Color: Black — #000000A borda da noite é um começo, não um fim.
O que está oculto contém a semente do retorno.