Ela está sentada entre colunas que um dia deviam marcar os limites firmes do certo e do errado, mas a cadeira está desocupada, as balanças deixadas na mesa, inclinando para o lado que tem apenas o peso ausente. Na praça da cidade, um tribunal se ergue de lajes antigas, a fachada de calcário gasta por estações de garoa e pela memória de debates feitos sob céus encobertos. Até a gárgula empoleirada acima das portas em arco, entalhada com olhos severos e cegos, vigia procedimentos que agora ecoam com uma formalidade oca, enquanto o assento do magistrado permanece vazio.
O roteiro do protocolo continua, papéis passados de escrivão a escrivão, canetas-tinteiro riscando o registro. Mas o coração da questão falta: a testemunha que devia falar está perdida em ruas escurecidas pela chuva, o caminho engolido por uma névoa que se assenta nos telhados, encharcando as ardósias sulcadas acima. Essas telhas velhas, extraídas de veios da montanha e moldadas por mãos praticadas, criam uma colcha pela cidade; abrigam as casas da garoa sombria, canalizando a água para calhas que correm ao longo de cada beiral. Os telhados estão abafados e dignos, carregando as cicatrizes de muitos invernos, uma coroa prática para as casas embaixo.
Além da cidade, pedreiras de pedra ficam na borda da floresta, cheias do silêncio do trabalho pausado. Ali, gerações cortaram blocos da terra, empilhando-os para casas, celeiros e os degraus que sobem até o tribunal. As ferramentas dos canteiros permanecem: martelos e cinzéis deixados onde o trabalho do dia terminou, os cabos úmidos da névoa persistente. Cada ferramenta guarda uma história de esforço, mas, sem mãos para empunhá-las, o propósito fica ocioso no ar frio.
Na cozinha, o pão da manhã descansa num balcão, a crosta fria como se estivesse sob um telhado de ardósia antiga. O vapor sobe de uma caneca lascada na janela, onde alguém um dia vigiava uma figura que voltava através do fio lento da chuva. O bule fica ao lado de um guardanapo dobrado, sem uso, à espera do convidado que não chegou. No parapeito, as folhas de uma lavanda em vaso estão orvalhadas de condensação, a planta absorvendo o dia tênue, prosperando em silêncio pelas raízes pacientes.
Lá fora, o tempo do meio-dia é um silêncio de garoa, nem tempestade nem calma, a névoa se agarrando a casacos e guarda-chuvas enquanto as pessoas passam apressadas pelos degraus do tribunal. Livros de direito estão empilhados num banco no vestíbulo, as lombadas carregando a memória da ordem, enquanto os procedimentos lá dentro derivam mais longe da resolução, girando em torno de um testemunho que falta, de uma intenção ausente. A chuva continua, firme e macia, como se preservasse a inclinação das balanças, convidando à reflexão sobre o que fica sem ser dito.
Para encontrar este dia, pode-se pausar e pôr a mão na pedra fria da soleira antes de sair; amarrar os cadarços junto à janela, vendo os telhados juntarem a garoa; escrever uma carta em papel pesado, deixando-a perto do bule como um convite ainda aberto; ou polir uma ferramenta favorita, mesmo que hoje não haja trabalho, honrando o labor que ainda há de vir.
A cor da sorte de hoje é Cinza-ardósia.
Lucky Color: SlateGray — #708090O tribunal espera a testemunha dele; os telhados seguram a chuva.