Na Imperatriz de pé, o jardim bem cuidado rende frutas, o trigo está alto, e os braços de uma mãe se abrem para compartilhar a fartura com todos. Invertida, o jardim cresce indomado e quebradiço. O cesto tecido, outrora transbordando, jaz virado sobre a terra batida. A colheita, perdida para o vento e para o tempo, nunca encontra o caminho até a cozinha. As ferramentas da fartura — pás, foices, aventais — pendem sem uso. Os campos, sem controle, tornam-se um emaranhado em que a promessa de ontem desbotou sob uma névoa de pó.
Outrora, esses jardins foram semeados por quem vinha de costas distantes, quem lembrava margens férteis de rio e prados silvestres, quem trazia consigo sementes e ofícios. As mãos deles, marcadas pelo trabalho, revolviam a terra rica no fim da tarde, os pés envolvidos em pano que mantinha o solo e o sol à distância. Esses envoltórios, feitos de fibras duráveis, protegiam a pele enquanto homens e mulheres cruzavam planícies abertas e construíam casas novas. Usavam esses panos pela razão prática de que o pó e o barro se agarravam a toda superfície. Soldados e lavradores, do mesmo modo, prezavam tal pano pela resistência: tecido apertado em teares, depois tingido com uma solução feita de folhas colhidas, raízes, e a água morna de sol de uma bacia do pátio.
Em terras distantes, exploradores e comerciantes marcavam a passagem pelo que cobria as pernas. Lá fora no mato, sob o vento seco e constante, moviam-se em silêncio, a roupa se misturando aos juncos e ao capim desbotado pelo sol. O mesmo tecido, cortado e costurado por mãos hábeis, tornava-se uniforme para quem ficava de vigia na névoa do amanhecer, os olhos estreitados contra um céu que prometia mais calor do que sombra. Na casa, cortinas de linho envelhecidas, outrora finas, agora guardavam a memória de colheitas idas. A roupa deixada a secar no ar do meio-dia ficava rija e sem marca, uma bandeira pálida contra a cerca negligenciada do jardim.
Às vezes o descuido da estação não é escolhido, mas herdado. O ar se enche de partículas finas demais para se ver, rodopiando em correntes quentes que empurram contra venezianas fechadas. O vento, inquieto e seco, levanta a camada de cima do solo dos caminhos e a assenta na varanda, dentro dos sapatos, sobre cada ferramenta deixada fora. O chão, batido e teimoso, recusa a pá. Dentro, um saco de grão permanece intocado na despensa, os laços frouxos, a farinha se assentando no fundo. A mesa, larga e acolhedora, está nua enquanto os planos de festas permanecem ditos pela metade, caindo como palha.
Ainda assim, há pequenos gestos que devolvem o cuidado ao mundo. Hoje, alguém pode juntar vagens caídas do caminho e plantá-las num trecho de terra nua, uma promessa às estações futuras. Limpe o pó de um peitoril, deixando a luz cair com clareza sobre o chão. Remende um avental gasto, enfiando uma agulha firme por um tecido cuja trama lembra a forma do trabalho dele. Ofereça uma xícara de chá morno a um vizinho, convidando-o a se abrigar do vento, mesmo que por pouco tempo.
A cor da sorte de hoje é Cáqui.
Lucky Color: Khaki — #F0E68CDeixe o cuidado recomeçar, onde quer que as suas mãos encontrem o trabalho.
Uma colheita branda pode crescer do que se cuida hoje.