Colors for the Fool

A cor da sorte de hoje, tirada do tarô

Tirar uma carta / A Imperatriz

A Imperatriz, Peru. A cor aparece no espelho do centro.

Peru

Invertida · #CD853F

A promessa da carta é a de um jardim que transborda, uma mesa coroada de frutas e de feixes, um abrigo macio e amplo. Mas, invertida, o jardim está negligenciado. As vinhas se emaranham e se enrolam sobre fileiras outrora arrumadas, as cabaças incham sem serem vistas, e a própria terra se torna distante. Os galhos se curvam com fruta deixada a estragar, os muros que um dia protegeram agora pesam sobre os cômodos lá dentro, e a colheita não encontra o caminho até quem tem fome. Para compreender esta quietude, imagine terraços antigos talhados em montanhas enevoadas, onde as mãos já não cuidam do solo e as pedras escorregam, devagar, sob o peso de estações esquecidas.

Numa cozinha, cascas de tubérculos descansam numa cesta tecida perto da lareira. Batata e mandioca, sem descascar e sem fatiar, esperam na luz fraca. A prensa outrora usada para extrair óleo das castanhas está silenciosa, a madeira inchada pelo desuso, o metal frio. Noutro cômodo, um poncho, pesado de lã andina, pende sobre uma cadeira. A trama é intrincada, mas o pó se assentou nos padrões, o ar em volta guardando o cheiro de milho conservado e de chuva distante. Lamparinas moldadas de barro, as superfícies gravadas com as formas de jaguares e de rios, tremulam, mas não dissipam o frio que avança.

Lá fora, o ar está cheio da memória das tempestades. Há uma calmaria no vento, uma pausa sem fôlego entre a garoa incessante e a promessa de sol rompendo. As nuvens se juntam sobre as cristas, baixando-se em vales de eucalipto e de capim silvestre. No mercado que um dia fervilhava de comerciantes oferecendo tapeçarias, grãos de cacau e pimentas secas, as barracas estão vazias. As moedas que mudavam de mãos, cunhadas com os rostos de velhos imperadores e de lhamas, juntam pó no fundo de tigelas de cabaça talhada. As rotas de comércio que um dia se enrolavam por florestas e subiam até picos cobertos de neve agora estão perdidas para leitos de rio que se deslocam e para deslizamentos.

À noite, uma xícara de chocolate quente temperado esfria sobre uma mesa toscamente talhada. O sabor é rico, mas intocado, o vapor se enrolando para cima e se misturando ao cheiro da terra depois da chuva. Um quipu, os cordões atados com histórias e números, jaz desenrolado ao lado da xícara: a mensagem por ler, o significado escorrendo em silêncio para a sombra. No canto, um saco de quinoa está esquecido, os grãos escorrendo de um buraco roído por um rato da montanha.

Hoje, carregue um talismã tecido no bolso, para se lembrar de cuidar dos pequenos descuidos. Prepare uma refeição de raízes, descascando e fatiando com atenção, e ofereça uma porção a alguém cujas mãos estejam vazias. Varra o pó de uma veste antiga e vista-a para se aquecer, ou conserte as costuras à luz de vela. Acenda uma lamparina ou queime um raminho de eucalipto, deixando o cheiro lembrar encostas distantes e a necessidade de se abrigar sem ser pesado.

A cor da sorte de hoje é Peru.
Lucky Color: Peru — #CD853FA chuva pesada passa; as montanhas esperam o sol.

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