A Sacerdotisa ― De pé
Dois pilares de pedra se erguem na quietude, emoldurando uma passagem que não leva a uma câmara, mas a um véu tecido tão fino que parece aquietar o próprio ar. A Sacerdotisa se senta entre eles, as mãos pousadas sobre um pergaminho fechado que se equilibra no colo, o título voltado para dentro. Atrás dela, a água se empoça numa reserva silenciosa, imóvel, refletindo o mundo como ele é e como poderia ser, embora a ninguém seja permitido espiar fundo demais. O mundo dos segredos não se revela num relance; prefere o silêncio do amanhecer e a superfície sem ruptura de poços esquecidos.
Além do véu, onde o conhecimento se torna névoa, o mundo está cheio de objetos que, como a Sacerdotisa, ocultam mais do que mostram. No coração de um pequeno povoado inglês, um armário de louça está numa sala. Dentro, uma xícara e um pires, as bordas guarnecidas com a memória de alguma primavera de muito tempo, descansam ao lado de uma pilha de pratos de jantar, cada um uma relíquia de um tempo em que o chá era um sacramento da tarde e as conversas se mediam pelo tilintar brando da porcelana. Esses objetos, esmaltados de histórias e carregando a fragrância mais fraca de sabonete de lavanda, esperam mãos que lembrem o modo certo de servir.
No jardim, a manhã se estende sobre a terra, e ali, entre as dedaleiras e o muro baixo de pedra, floresce um grupo delicado de não-me-esqueças. As pétalas guardam o frescor de um céu nublado depois da chuva, quase parecendo cintilar sob o orvalho. Essas flores pequenas são muitas vezes enfiadas em cartas ou prensadas entre as páginas de um diário, como se para lacrar uma promessa ou preservar um momento não dito.
Longe, no Canal da Mancha, o tempo às vezes se volta para uma brandura particular. Pescadores ao amanhecer erguem os olhos e veem a névoa rolando, daquela que suaviza as bordas de tudo e deixa só o contorno das velas e do farol à distância. Em tais manhãs, o mundo prende a respiração. O mar, por um tempo, torna-se tão silencioso quanto a água atrás da Sacerdotisa. Até as gaivotas chamam mais baixo, as asas traçando o horizonte entre o que é conhecido e o que a neblina oculta.
No coração da cidade antiga, rendeiras se reúnem junto à janela, os dedos se movendo num ritmo firme. O pano que produzem apanha a primeira luz do dia, padrões intrincados se formando nos bilros, cada fio cruzando o seguinte com uma intenção não dita. Esses véus não são para exibição. São guardados em baús forrados de cedro, trazidos à luz só em ocasiões raras, quando a tradição pede que algo não dito seja honrado.
Numa manhã calma, uma pessoa pode pausar para tirar o pó de uma xícara prezada do armário e apreciar um chá a sós. Outra pode colher um único não-me-esqueças e enfiá-lo entre as páginas de um livro querido, um ato quieto de memória. Se o dia começa com uma neblina tão fina que faz os telhados sumirem, caminhar através dela se torna uma meditação sobre o que está aqui e o que permanece oculto. No crepúsculo, pode-se abrir uma caixa de renda antiga e deixar os padrões correrem pelas pontas dos dedos, contemplando o que se preserva e o que se guarda em segredo.
A cor da sorte de hoje é Azul Alice.
Lucky Color: AliceBlue — #F0F8FFO segredo está a salvo e o ar permanece imóvel.