Uma mochila num pau, uma beira de estrada espalhada de pétalas e migalhas, a margem de um caminho esquecido e meio gasto pelas solas de errantes. O cão da carta mordisca tornozelos desguarnecidos, puxando para o desconhecido, enquanto o penhasco se borra sob um pé descuidado. Acima, as nuvens se juntam, não tanto em aviso quanto em curiosidade, observando para ver onde a selvageria pousa quando salta antes de o chão ser encontrado. O ar está inquieto, a virada das estações entre a semeadura e o primeiro fruto.
Houve um tempo em que viajantes nos Andes, em busca de sustento, deram com videiras que emaranhavam o chão com pequenos globos brilhantes. Esses globos eram lisos, nem baga nem grão, e os agricultores locais os conheciam bem, a polpa uma parte familiar dos ensopados de todo dia. Quando os navios cruzaram o Atlântico, esses frutos se tornaram sementes nos bolsos, sinais de novos começos, às vezes recebidos com suspeita, às vezes plantados em hortas só para ver o que aconteceria. Na Itália, os cozinheiros os viam amadurecer nos peitoris, incertos a princípio, depois encantados com o sabor, provando risco e esperança cozidos juntos. As cozinhas mudaram. O pão simples rendia mais com uma concha de molho. O salto do velho mundo para o novo deixou um rastro de refeições, incertas a princípio, depois essenciais.
Mesmo agora, a memória permanece em cada caixa de mercado e em cada canteiro de quintal onde essas plantas crescem. As raízes se assentam apesar dos ventos. Os caules vagam, enrolando-se por gaiolas de arame, nunca de todo eretos, mas sempre alcançando. Os menores cabem na palma, brilhantes e firmes, enquanto outros pesam as videiras, pesados como uma promessa. Quando as tempestades rolam pelas planícies, essas plantas se curvam, as folhas lisas na chuva, mas o fruto permanece, inchando sob o calor da tempestade. Às vezes o granizo deixa os ramos nus, e às vezes um sol calmo chega bem a tempo de adoçar a pele.
Nas manhãs de mercado, as caixas ficam cheias perto da padaria e do peixeiro. As mãos buscam o peso familiar, pressionando só o bastante para testar a firmeza. Alguns rolam para as bancadas, esperando ser fatiados para sanduíches ou fervidos em fogo baixo numa panela. Nas cozinhas, as facas deslizam pela pele e pela polpa, as sementes espalhando-se pelas tábuas, destinadas à sopa, ao molho ou a uma salada rápida. Às vezes, o fruto é jogado inteiro numa frigideira, rompendo-se no calor, um salto minúsculo para a transformação. Nas noites tardias de verão, os vizinhos partilham cestos por cima de cercas baixas, um presente tido como certo até as videiras murcharem no outono.
Hoje, a leveza não está no céu, mas na mão, cheia do que cresce perto do chão. O momento antes da queda é uma pergunta, uma pausa entre colher e provar. É fácil saltar a conferência, jogar um punhado no almoço sem lavar, confiar que o que vem da terra alimentará sem falha. Às vezes o passo é prematuro, a polpa verde demais ou passada, mas ainda assim nutre, perdoando um passo em falso. Não pede nada senão paciência e disposição de tentar de novo, de provar antes de julgar, de plantar mais uma semente em solo incerto.
Você pode lavar o fruto e comê-lo inteiro antes de sair para o trabalho, ou fatiá-lo grosso para um sanduíche que mancha as mãos, ou deixá-lo ferver em fogo baixo até virar molho enquanto a chuva bate no telhado. Pode guardar as sementes, pressionando-as num pote com um pouco de água, e prometer a si mesmo uma horta na próxima primavera.
A cor da sorte de hoje é Tomate.
Lucky Color: Tomato — #FF6347Algumas coisas amadurecem melhor depois do salto.
Hoje, o gosto é uma espécie de confiança.