A Torre ― De pé
A noite paira sobre a torre de pedra, antiga e alta, a silhueta aguda quebrada apenas por um veio súbito de raio. O céu é uma cabeça de trovão, pesada e revolta. Num instante violento, aquele clarão atinge o parapeito mais alto, fendendo a pedra e lançando a coroa em ponta a retinir no invisível lá embaixo. O mundo prende o fôlego enquanto pedras soltas despencam, desaparecendo na ausência sob a queda. O ar está espesso de um cheiro como madeira queimada e do gosto de uma chuva pesada de ferro.
Ao pé da torre, a terra está silenciosa e estranha. É a hora em que os corvos estão mais despertos, as asas batendo para cima a partir de campos adormecidos, os olhos agudos buscando o que a tempestade espalhou. Os próprios campos estão escondidos, os sulcos prensados sob um manto de terra e de sombra. Em algum lugar perto, um poço de carvão exala a memória do fogo, combustível gasto e ambição gasta, agora apenas casca escurecida e o cintilar de um mineral que não cede. O poço, velado e imóvel, promete profundidade, a corda escorregadia e fresca na mão, a água ecoando muito abaixo, um segredo guardado na terra.
Na estrada que serpenteia por essa inquietação, a carroça de um mercador carrega uma peça de tecido, tão escura quanto o interior de uma noite de lua nova. O pano está dobrado e pesado, tecido apertado, destinado ao casaco de um agente funerário ou às cortinas de um quarto onde o sono é absoluto. As mãos do mercador estão manchadas do manejo do corante, da tinta pressionada no pergaminho e nos livros de contas, da fuligem que assenta depois de as lâmpadas serem apagadas. Ele lembra as rotas de comércio onde o carvão vegetal é trocado, onde pedaços de piche e de alcatrão são aquecidos para vedar barcos contra os segredos do rio, onde facas de obsidiana são embrulhadas em trapos oleados, afiadas o bastante para fender o próprio silêncio.
Além do caminho, na sebe, cresce um tufo de beladona. As bagas, lustrosas e redondas, não são tocadas pelos pássaros: conhecidas e ignoradas, um aviso e uma promessa. Ao lado, as raízes amargas do alcaçuz e a íris de semente profunda jazem dormentes, à espera de uma chance de alcançar a superfície, de algo que abra o chão antigo. A chegada da tempestade é um convite: o que estava enterrado, o que estava escondido em arcas e atrás de véus, vem agora à frente com uma clareza sem arrependimento. O cipreste no cemitério se inclina, imóvel ao vento, o tronco uma marca para a memória e para os fins.
Dentro de casa, a lareira é varrida depois da tempestade. As cinzas, finas e sem luz, são espalhadas no jardim para alimentar o solo da próxima estação. Um caldeirão de ferro fundido repousa sobre as pedras, frio agora, mas marcado e temperado por mil refeições e por cem esvaziamentos, a superfície absorvendo cada história e cada fome. Uma caixa com fechadura, guardada debaixo da cama, contém um diário encadernado em oleado, uma lembrança de uma viagem através de mares sem lua, páginas preenchidas pela fumaça de vela e pelo som de sinos distantes dobrando no neblina.
Esta noite, depois de o raio ter feito o seu trabalho, uma pessoa pode varrer a própria lareira, juntando o que resta depois do fogo. Pode acender um bastão de incenso feito de madeira carbonizada, deixando a fumaça marcar um limite entre o que fica e o que vai. É uma boa hora para caminhar sob o cipreste e deixar as raízes falarem, ou para preparar uma xícara de café, deixando a escuridão assentar na xícara antes de beber fundo. Cada ato é um reconhecimento quieto do que o desmoronamento revela: a verdade por baixo, à espera do próximo começo.
A cor da sorte de hoje é Preto.
Lucky Color: Black — #000000O chão debaixo sustenta tudo o que cai e tudo o que há de se erguer.
Deixe a tempestade aclarar o que precisa ser visto.