A Imperatriz ― De pé
O trigo acena ao sol, de espiga pesada e pronto para a foice. O jardim se estende sob um céu que promete tanto calor quanto chuva, e a Imperatriz se senta entre as rosas, o assento talhado de madeira e amolecido com uma esteira trançada. À volta dela, as árvores frutíferas se curvam com peras e ameixas, e logo além do muro baixo de pedra uma cachoeira desliza sobre rochas musgosas, caindo numa poça onde libélulas pairam. A terra está cheia, oferecendo o que fez. Os sinais não são sutis: a abundância está em toda parte, tecida nos caules e nos espinhos e no pulso da água sobre a pedra.
Nos campos, as capas de fora do milho sussurram ao vento, os fios macios que se juntam na ponta de cada espiga cintilando pela tarde. Esses fios, delicados mas fortes, escorrem pelos dedos na colheita, emaranhando-se em cestos longos e apanhando a memória da luz do sol. Há uma crença antiga, levada de vale de rio até pradaria, de que esses fios podem ser torcidos em bonecas para velar o celeiro, protegendo o grão guardado através do inverno. Em alguns povoados, esses fios eram deixados em feixes pequenos nas portas depois da lua da colheita, um desejo de segurança e de um ano de armários cheios.
A Imperatriz conhece esses rituais, a repetição quieta ecoando o virar das estações. Mulheres nas cozinhas passam as mãos por esteiras tecidas de fibras recolhidas durante a colheita. Põem montes de pão, ainda perfumado do forno, sobre essas esteiras: o próprio pão salpicado dos filamentos minúsculos que lembram o campo. Nos dias de festa, as crianças são enviadas para recolher a seda nas bordas do jardim, para ser atada em laços para chapéus de festival, ou trançada perto da base de velas acesas para os antepassados. Noutro lugar, mercadores viajantes carregam sacos forrados desta coisa macia, acreditando que ela amortece os potes preciosos e as conservas lá dentro contra o solavanco da estrada.
Perto dos rios, em lugares onde o ar fica espesso com o calor do meio do verão, moitas inteiras de milho estão altas como um homem, as espigas envolvidas em camadas de palha e coroadas com esta franja branda. No folclore, dizia-se que o tempo carregava o cheiro dos campos para dentro de casa, sobretudo depois de uma chuva da manhã, quando o ar estava fresco e a luz apanhava cada fio. Uma avó podia pôr um cesto desses fios ao lado da chaleira, usando-os para atar feixes de ervas, ou para forrar o fundo de uma forma de torta para que a crosta não grudasse. A memória da fartura está guardada nestes atos pequenos, tanto quanto nos pães e nos potes postos para o inverno.
Para alguém que se senta com a Imperatriz hoje, uma coisa pequena poderia ser visitar um jardim ou um mercado e procurar os fios no topo do milho, manejando-os como se manejaria algo precioso e vivo. Pode ser tão simples quanto pôr uma esteira tecida sobre a mesa antes de uma refeição, ou guardar alguns fios para atar em volta de um pote de conservas, como lembrete da plenitude da estação. Você pode tentar tecer uma boneca pequena ou um enfeite desses fios, oferecendo-o a um amigo ou pondo-o num peitoril onde o sol da manhã o encontre. Cada um desses gestos recolhe um pouco da abundância do mundo, tornando-a tangível para o dia à frente.
A cor da sorte de hoje é Barba-de-milho.
Lucky Color: Cornsilk — #FFF8DCA abundância vive nos fios pequenos e tangíveis. O que você recolhe hoje, você guarda.